Pois, se os bons atos são recompensados, o corpo claramente sofre injustiça, visto que compartilhou com a alma os trabalhos ligados à prática do bem, mas não participa da recompensa pelos bons atos; e, embora muitas vezes a alma seja desculpada por certas faltas em razão das necessidades e carências do corpo, o próprio corpo fica privado de toda participação nos bons atos cujos trabalhos ajudou a suportar durante a vida. Tampouco, se as faltas são julgadas, a alma é tratada com justiça, supondo-se que ela sozinha pague a pena pelas faltas que cometeu ao ser solicitada pelo corpo e por ele arrastada a seus apetites e movimentos, ora dominada e levada, ora atraída de modo muito violento e, às vezes, concordando com ele por bondade e cuidado de sua preservação.
2Como pode deixar de ser injusto que a alma seja julgada isoladamente por coisas pelas quais, em sua própria natureza, não sente apetite, movimento ou impulso, como a licenciosidade, a violência, a cobiça, a injustiça e os atos injustos delas decorrentes?
3Pois, se a maioria desses males procede do fato de os homens não dominarem as paixões que os solicitam, e se eles são solicitados pelas necessidades e carências do corpo e pelo cuidado e atenção que este exige — motivos de toda aquisição de bens e, sobretudo, de seu uso, além do casamento e de todos os atos da vida, nos quais e em relação aos quais se vê o que é errado e o que não é —, como pode ser justo que apenas a alma seja julgada pelas coisas que o corpo é o primeiro a sentir e nas quais arrasta a alma à simpatia e à participação em atos dirigidos ao que ele deseja? Como pode ser justo que os apetites e prazeres, e também os temores e tristezas, cujo excesso está sujeito a julgamento, sejam postos em movimento pelo corpo, mas que os pecados deles decorrentes e as penas pelos pecados cometidos recaiam somente sobre a alma, que por si mesma não necessita de nada disso, nem deseja, teme ou sofre coisa alguma daquilo que o homem costuma sofrer?
4Mesmo que sustentemos que essas afecções não pertencem apenas ao corpo, mas ao homem — e assim falaremos corretamente, pois a vida humana é uma só, embora composta de duas partes —, certamente não afirmaremos que pertençam à alma se considerarmos simplesmente sua natureza própria. Pois, se ela absolutamente não necessita de alimento, jamais pode desejar aquilo de que não precisa minimamente para subsistir; nem pode sentir impulso por coisas que não tem capacidade alguma de usar; tampouco pode afligir-se com a falta de dinheiro ou de outros bens, pois não lhe são apropriados.
5E, se ela é superior à corrupção, nada teme como capaz de destruí-la: não teme fome, doença, mutilação, deformidade, fogo ou espada, pois nenhuma dessas coisas pode causar-lhe dano ou dor, visto que nem os corpos nem as forças corporais a atingem. Mas, se é absurdo atribuir as paixões à alma como se lhe pertencessem em particular, é sumamente injusto e indigno do julgamento de Deus impor somente à alma os pecados que delas brotam e as punições consequentes.