Pois ou a morte é a extinção completa da vida, dissolvendo-se e corrompendo-se a alma juntamente com o corpo; ou a alma permanece por si só, incapaz de dissolução, dispersão e corrupção, ao passo que o corpo se corrompe e se dissolve, sem conservar lembrança alguma dos atos passados nem percepção do que experimentou em união com a alma. Se a vida dos homens se extinguir inteiramente, é manifesto que não haverá cuidado pelos homens que já não vivem nem julgamento dos que viveram em virtude ou vício; então irromperá outra vez sobre nós tudo o que pertence a uma vida sem lei, com o enxame de absurdos que dela decorre e o ápice dessa ausência de lei: o ateísmo.
2Mas, se o corpo se corromper e cada uma das partículas dissolvidas passar para seu elemento afim, enquanto a alma permanecer imortal por si só, nem nessa hipótese haverá julgamento da alma, pois faltaria equidade: é ilícito suspeitar que possa proceder de Deus qualquer julgamento destituído de equidade. Ora, falta equidade ao julgamento se não se conserva o ser que praticou a justiça ou a iniquidade, pois quem praticou cada um dos atos da vida submetidos a julgamento foi o homem, não a alma por si só. Em suma, essa concepção em nenhum caso se concilia com a equidade.