Além do que foi dito, não é absurdo que, embora nem sequer possamos conceber a virtude e o vício existindo separadamente na alma — pois reconhecemos as virtudes como virtudes do homem e, de modo semelhante, o vício, seu oposto, como algo que não pertence à alma separada do corpo e existente por si só —, a recompensa ou punição por eles seja atribuída apenas à alma? Como se pode conceber coragem ou fortaleza existentes somente na alma, se ela não teme morte, ferimentos, mutilação, perda, maus-tratos nem a dor e o sofrimento que deles decorrem? E o que diremos do domínio próprio e da temperança, se nenhum desejo a atrai para o alimento, a união sexual ou outros prazeres e deleites, nem alguma coisa a solicita de dentro ou a excita de fora?
2E que dizer da sabedoria prática, se não lhe são apresentadas coisas que podem ou não ser feitas, nem coisas a escolher ou evitar, ou melhor, se nela não há movimento algum nem impulso natural para fazer coisa alguma?
3E como poderia, em qualquer sentido, a equidade ser atributo das almas, seja entre si, seja em relação a outra coisa, da mesma espécie ou de espécie diferente, se elas não são capazes, por fonte, meio ou modo algum, de conceder o que é igual segundo o mérito ou a proporção, à exceção da honra prestada a Deus? Além disso, não têm impulso ou movimento para usar o que lhes pertence ou abster-se do que pertence a outrem, pois o uso das coisas conforme à natureza, ou a abstenção delas, refere-se àqueles constituídos para usá-las, enquanto a alma de nada necessita nem é constituída para usar coisa alguma; portanto, não se pode encontrar numa alma assim constituída a chamada ação independente das partes.