A criação do homem.
2O argumento fundado na causa ficará evidente se considerarmos se o homem foi feito ao acaso e em vão ou para alguma finalidade; e, se para alguma finalidade, se apenas para viver e perseverar na condição natural em que foi criado ou para o uso de outro; e, se com vistas a algum uso, se para o do
3próprio Criador ou para o de algum dos seres que lhe pertencem e que ele julga dignos de maior cuidado. Ora, se considerarmos isso de modo mais geral, veremos que uma pessoa de mente sã, que age movida por um juízo racional, nada faz em vão daquilo que realiza intencionalmente, mas o faz para uso próprio, para uso de outra pessoa de quem cuida, ou por causa da própria obra, movida por inclinação e afeição naturais por sua produção.
4Por exemplo, para tornar claro o que queremos dizer, um homem constrói uma casa para seu próprio uso; mas para o gado, os camelos e outros animais de que necessita, constrói o abrigo adequado a cada um deles. Este não é para seu uso, se considerarmos apenas a aparência; é, porém, se observarmos a finalidade que tem em vista, embora seu objeto imediato seja o cuidado com aqueles por quem se interessa. Ele também tem filhos, não para seu próprio uso nem por causa de alguma outra coisa que lhe pertença, mas para que aqueles que dele nascem existam e permaneçam por tanto tempo quanto possível; assim, pela sucessão de filhos e netos, consola-se diante do fim da própria vida, esperando dessa maneira tornar imortal o que é mortal. Tal é o procedimento dos homens.
5Deus, porém, não pode ter criado o homem em vão, pois é sábio e nenhuma obra da sabedoria é vã; nem o criou para seu próprio uso, pois de nada necessita. Para um Ser que absolutamente de nada necessita, nenhuma de suas obras pode contribuir para seu uso. Tampouco fez o homem por causa de qualquer outra das obras que criou. Pois nada dotado de razão e discernimento foi criado, nem é criado, para o uso de outro, seja este maior ou menor do que ele, mas para a vida e a permanência do próprio ser assim criado.
6A razão não consegue descobrir uso algum que se possa considerar causa da criação dos homens, pois os imortais são livres de necessidades e não precisam da ajuda dos homens para existir; e os seres irracionais estão por natureza submetidos e prestam aos homens os serviços para os quais cada um foi destinado, mas não foram destinados, por sua vez, a servir-se dos homens. Pois não era nem é correto rebaixar aquele que governa e dirige ao uso do inferior, nem submeter o racional ao irracional, que não é apto a governar.
7Portanto, se o homem não foi criado sem causa e em vão — pois nenhuma das obras de Deus é vã, ao menos quanto ao propósito de seu Criador —, nem para uso do próprio Criador ou de alguma das obras que dele procederam, é bem claro que, embora, segundo a primeira e mais geral consideração do assunto, Deus tenha feito o homem para si, em conformidade com a bondade e a sabedoria manifestas em toda a criação, segundo a consideração mais próxima dos seres criados, ele o fez por causa da vida dos que criou, vida que não é acesa por pouco tempo para depois se extinguir.
8Aos seres que rastejam, suponho, às aves, aos peixes e, de modo mais geral, a todas as criaturas irracionais, Deus atribuiu uma vida dessa espécie. Mas aos que trazem em si a imagem do próprio Criador, são dotados de entendimento e agraciados com juízo racional, o Criador atribuiu duração perpétua, para que, reconhecendo aquele que os fez, seu poder e sua habilidade, e obedecendo à lei e à justiça, atravessem toda a existência livres de sofrimento, de posse das qualidades com que suportaram corajosamente a vida anterior, embora tenham vivido em corpos corruptíveis e terrenos.
9Pois tudo o que foi criado por causa de outra coisa, quando cessar aquilo por cuja causa foi criado, também deixará devidamente de existir e não continuará existindo em vão, visto que entre as obras de Deus não há lugar para o inútil. Mas aquilo que foi criado para existir e viver uma vida naturalmente adequada a si, uma vez que a própria causa está ligada à sua natureza e só é reconhecida em relação à própria existência, jamais pode admitir causa alguma que aniquile inteiramente sua existência.
10E, uma vez que se vê essa causa situada na existência perpétua, o ser assim criado deve ser preservado para sempre, fazendo e experimentando o que convém à sua natureza, cada uma das duas partes de que é composto contribuindo com o que lhe pertence: a alma deve existir e permanecer sem mudança na natureza em que foi criada e exercer suas funções próprias, como dirigir os impulsos do corpo e julgar e medir o que ocorre de tempos em tempos pelos padrões e medidas adequados; e o corpo deve mover-se conforme sua natureza em direção aos objetos que lhe são próprios e passar pelas mudanças que lhe foram destinadas, entre elas, além das relativas à idade, aparência e tamanho, a ressurreição. Pois a ressurreição é uma espécie de mudança, a última de todas, e uma mudança para melhor daquilo que então ainda permanece existente.