Portanto, haverá ressurreição.
2Os argumentos que há pouco propus examinar para estabelecer a verdade da ressurreição são todos da mesma espécie, pois partem do mesmo ponto: a origem dos primeiros homens pela criação. Mas, enquanto alguns obtêm sua força do próprio ponto de partida, outros, decorrentes da natureza e da vida humanas, recebem sua credibilidade da providência de Deus sobre nós. Pois a causa segundo a qual e por causa da qual os homens vieram a existir, intimamente ligada à natureza humana, tira sua força da criação; já o argumento da retidão, que apresenta Deus julgando os homens conforme viveram bem ou mal, tira sua força do fim da existência deles: vêm à existência pelo primeiro fundamento, mas sua condição depende mais da providência de Deus.
3Agora que demonstrei, na medida de minhas forças, as questões que vêm primeiro, convém provar nossa proposição também pelas que se seguem, isto é, pela recompensa ou punição devida a cada homem segundo o justo julgamento e pela causa final da existência humana. Destas, ponho em primeiro lugar a que vem primeiro por natureza e examino antes o argumento relativo ao julgamento, fazendo apenas uma observação preliminar, por respeito ao princípio próprio do assunto e à ordem: compete aos que admitem ser Deus o Criador deste universo atribuir à sua sabedoria e retidão a preservação e o cuidado de tudo o que foi criado, se desejam permanecer fiéis aos próprios princípios; e, com tais convicções, sustentar que nada na terra ou no céu está sem guarda ou providência, mas que, ao contrário, a atenção do Criador alcança todas as coisas, invisíveis e visíveis, pequenas e grandes. Pois todas as coisas criadas exigem a atenção do Criador, e cada uma em particular segundo sua natureza e o fim para o qual foi feita; embora me pareça esforço inútil percorrer agora a lista, distinguir os vários casos ou mencionar em detalhe o que convém a cada natureza.
4O homem, ao menos, de quem agora nos cabe falar, por ter necessidades, requer alimento; por ser mortal, descendência; por ser racional, um processo de julgamento. Mas, se cada uma dessas coisas pertence ao homem por natureza e ele precisa de alimento para viver, de descendência para a continuidade da espécie e de julgamento para que o alimento e a descendência estejam sujeitos à lei, segue-se naturalmente, visto que alimento e descendência dizem respeito às duas partes em conjunto, que o julgamento também deve referir-se a ambas — entendo por ambas o homem composto de alma e corpo —, e que esse homem responde por todos os seus atos e por eles recebe recompensa ou punição.
5Ora, se o justo julgamento atribui a ambas as partes reunidas a retribuição pelos atos praticados; se não convém que apenas a alma receba o salário dos atos realizados em união com o corpo — pois, por si só, ela não tem inclinação aos erros cometidos em ligação com os prazeres, o alimento e os cuidados do corpo — nem que apenas o corpo o receba — pois, por si só, ele não é capaz de distinguir a lei e a justiça —, mas o homem composto dos dois é julgado por cada ato que praticou; e se a razão não encontra esse julgamento nesta vida — pois a retribuição segundo o mérito não tem lugar na existência presente, já que muitos ateus e pessoas que praticam toda espécie de iniquidade e maldade vivem até o fim sem sofrer desgraça, ao passo que aqueles que manifestamente levaram uma vida exemplar em todas as virtudes vivem entre dores, insultos, calúnias, ultrajes e sofrimentos de todo tipo — nem depois da morte — pois as duas partes juntas já não existem, uma vez que a alma está separada do corpo, e o próprio corpo se decompõe nos materiais de que era composto, sem conservar nada de sua estrutura ou forma anterior, muito menos a lembrança de seus atos —, a conclusão disso tudo é evidente para todos: nas palavras do apóstolo, "este corruptível (e dissolúvel) deve revestir-se de incorrupção", para que os mortos, vivificados pela ressurreição, e as partes separadas e inteiramente dissolvidas, reunidas de novo, possam cada qual receber justamente o que praticou por meio do corpo, seja bom, seja mau.