A probabilidade da ressurreição.
2Pois esta natureza humana, à qual desde o princípio, segundo o propósito de seu Criador, foi atribuída a desigualdade, tem vida e duração desiguais, interrompidas ora pelo sono, ora pela morte e pelas mudanças próprias de cada etapa da vida, enquanto as que se seguem às primeiras não se podem ver claramente de antemão. Teria alguém acreditado, sem a lição da experiência, que na semente macia e uniforme em todas as suas partes estivesse depositada tamanha variedade e quantidade de grandes forças, ou de massas que assim surgem e se consolidam — refiro-me aos ossos, nervos, cartilagens, músculos, carne, intestinos e às demais partes do corpo?
3Pois nada disso se vê na semente ainda úmida; nem nas crianças se manifestam as características dos adultos; nem na idade adulta, as dos que passaram da flor da idade; nem nestes, as dos que envelheceram.
4Embora algumas das coisas que mencionei não mostrem em absoluto, e outras apenas tenuemente, a sequência natural e as mudanças que sobrevêm à natureza humana, todos os que não têm o juízo obscurecido pelo vício ou pela preguiça sabem que primeiro deve haver a deposição da semente; que, depois de ela se organizar completamente em todos os membros e partes e a prole vir à luz, seguem-se o crescimento próprio da primeira fase da vida e a maturidade que acompanha esse crescimento; depois da maturidade, vem o enfraquecimento das forças físicas até a velhice e, quando o corpo está desgastado, sua dissolução.
5Assim, nessa matéria, embora nem a semente traga inscritas em si a vida ou a forma dos homens, nem a vida traga inscrita a dissolução nos elementos primordiais, a sucessão dos acontecimentos naturais torna crível o que, pelos próprios fenômenos, não teria credibilidade. Com muito mais razão, portanto, a razão, ao descobrir a verdade a partir da sequência natural, oferece fundamento para crer na ressurreição, pois é mais segura e mais forte que a experiência para estabelecer a verdade.