Que ninguém julgue estranho chamarmos vida à continuidade da existência interrompida pela morte e pela corrupção; considere antes que essa palavra não tem um único sentido, nem há uma única medida de duração, porque tampouco é única a natureza das coisas que permanecem.
2Pois, se cada coisa que permanece o faz segundo sua natureza própria, não encontraremos nos seres inteiramente incorruptíveis e imortais uma duração igual à nossa, porque a natureza dos seres superiores não se rebaixa ao nível dos inferiores; nem é correto buscar nos homens uma duração invariável e imutável, já que aqueles foram criados imortais desde o princípio e subsistem sem fim pela simples vontade de seu Criador, enquanto os homens, quanto à alma, têm desde sua origem uma continuidade imutável, mas, quanto ao corpo, alcançam a imortalidade mediante uma transformação.
3É isso que significa a doutrina da ressurreição. Tendo-a em vista, aguardamos a dissolução do corpo como consequência de uma vida de carência e corrupção e, depois dela, esperamos uma continuidade imortal, sem equiparar nossa morte à dos animais irracionais nem a permanência do homem à dos imortais, para que não igualemos inadvertidamente a natureza e a vida humanas àquilo com que não devem ser comparadas. Não deve, portanto, causar desagrado que pareça haver alguma desigualdade na duração dos homens; nem devemos desesperar da ressurreição porque a separação da alma dos membros do corpo e a dissolução de suas partes interrompem a continuidade da vida.
4Pois, embora o relaxamento dos sentidos e das forças físicas que ocorre naturalmente durante o sono pareça interromper a vida sensível quando os homens dormem em intervalos regulares e, por assim dizer, voltam a viver, não nos recusamos a chamá-la vida. Por essa razão, suponho, alguns chamam o sono de irmão da morte, não porque ambos descendam dos mesmos antepassados e pais, mas porque os mortos e os adormecidos estão sujeitos a estados semelhantes, ao menos quanto à imobilidade e à ausência de toda percepção do presente ou do passado, ou melhor, da própria existência e da própria vida.
5Se, portanto, não nos recusamos a chamar vida à vida humana, cheia de tamanha desigualdade desde o nascimento até a dissolução e interrompida por todas as coisas antes mencionadas, tampouco devemos desesperar da vida que sucede à dissolução e envolve a ressurreição, embora por algum tempo seja interrompida pela separação da alma e do corpo.