Embora a causa reconhecível na criação dos homens baste por si mesma para provar que a ressurreição segue, por sequência natural, a dissolução dos corpos, talvez seja correto não evitar nenhum dos argumentos propostos, mas, conforme o que foi dito, indicar aos que não conseguem percebê-los por si mesmos os argumentos que procedem de cada verdade derivada das primeiras; e, acima de tudo, a natureza dos homens criados, que nos conduz à mesma concepção e possui a mesma força como prova da ressurreição.
2Pois, se a natureza humana em geral é composta de uma alma imortal e de um corpo ajustado a ela na criação, e se Deus não destinou tal criação, tal vida e todo esse curso de existência à natureza da alma isoladamente nem à natureza do corpo em separado, mas aos homens compostos dos dois, para que, depois de atravessarem a existência presente, cheguem a um fim comum com os mesmos elementos de que são compostos ao nascer e ao longo da vida, segue-se inevitavelmente que, visto que dos dois se forma um único ser vivo que experimenta tudo o que experimentam a alma e o corpo e realiza tudo o que exige o juízo dos sentidos ou da razão, toda essa série de coisas deve dirigir-se a um único fim. Desse modo, todas elas e por meio de todas elas — a criação, a natureza, a vida, os atos e sofrimentos do homem, o curso de sua existência e o fim adequado à sua natureza — concorrem numa só harmonia e numa mesma experiência comum.
3Mas, se há uma só harmonia e uma comunidade de experiência pertencente ao ser inteiro, seja nas coisas que brotam da alma, seja naquelas realizadas por meio do corpo, o fim de todas também deve ser um só. E o fim será rigorosamente um só se o ser a que pertence permanece o mesmo em sua constituição; o ser será exatamente o mesmo se forem as mesmas todas as partes que o compõem. E elas serão as mesmas quanto à sua união peculiar se as partes dissolvidas voltarem a unir-se para constituir o ser. A constituição dos mesmos homens demonstra necessariamente que haverá ressurreição dos corpos mortos e dissolvidos; pois, sem ela, nem as mesmas partes poderiam unir-se naturalmente umas às outras, nem a natureza dos mesmos homens poderia ser reconstituída.
4E, se o entendimento e a razão foram dados aos homens para discernirem as coisas apreendidas pelo intelecto — não só os seres, mas também a bondade, a sabedoria e a retidão daquele que os concedeu —, segue-se necessariamente que, enquanto perdurarem as coisas por causa das quais foi dado o juízo racional, também deverá perdurar o juízo dado para elas. Mas é impossível que ele perdure se não perdurar a natureza que o recebeu e à qual está ligado. Quem recebeu entendimento e razão foi o homem, não a alma isoladamente. Portanto, o homem, que consiste das duas partes, deve permanecer para sempre. Mas é impossível que permaneça sem ressuscitar. Pois, se não houvesse ressurreição, a natureza dos homens enquanto homens não subsistiria.
5E, se a natureza humana não subsiste, em vão a alma foi ajustada às necessidades e experiências do corpo; em vão o corpo foi limitado, de modo que não pode obter o que deseja, obedecendo às rédeas da alma e sendo guiado por ela como por um freio; em vão são o entendimento, a sabedoria, a observância da retidão, a prática de toda virtude e a promulgação e aplicação das leis; em suma, é vão tudo o que há de nobre nos homens ou por causa deles, ou melhor, a própria criação e natureza dos homens. Mas, se a inutilidade está inteiramente excluída de todas as obras de Deus e de todos os dons por ele concedidos, é inevitável concluir que, juntamente com a duração interminável da alma, haverá permanência perpétua do corpo conforme sua própria natureza.