A demonstração das diversas doutrinas que compõem a verdade, ou de qualquer questão proposta à investigação, se há de produzir confiança inabalável no que é dito, deve começar não por algo exterior nem pelo que certas pessoas pensam ou pensaram, mas pela noção comum e natural da questão ou pela ligação das verdades secundárias com as primeiras. Pois a questão diz respeito ou às crenças primeiras, e então basta recordá-las para despertar a noção natural, ou às coisas que naturalmente decorrem das primeiras e à sequência que lhes é própria.
2Nessas coisas devemos observar a ordem, mostrando o que decorre rigorosamente das primeiras verdades, ou daquelas colocadas primeiro, para não perdermos de vista a verdade nem a certeza que temos dela, nem confundirmos as coisas ordenadas pela natureza e distintas umas das outras, nem rompermos a ordem natural. Por isso, penso que convém aos que desejam tratar o assunto com equidade e formar um juízo inteligente sobre a existência ou não da ressurreição considerar primeiro atentamente a força dos argumentos que contribuem para demonstrá-la e o lugar de cada um deles: qual é o primeiro, o segundo, o terceiro e o último.
3Ao ordená-los, devem pôr em primeiro lugar a causa da criação dos homens, isto é, o propósito do Criador ao formar o homem; depois, relacionar a ela, como convém, a natureza dos homens assim criados, não por ser esta segunda na ordem, mas porque não podemos julgar ambas ao mesmo tempo, embora estejam intimamente ligadas por natureza e tenham igual força para a questão em exame. Mas, embora a ressurreição seja claramente demonstrada por essas provas primeiras, derivadas da obra da criação, podemos também alcançar convicção a seu respeito pelos argumentos tomados da providência, isto é, da recompensa ou punição devida a cada homem conforme o justo julgamento, e do fim da existência humana.
4Pois muitos, ao discutir a ressurreição, fundamentaram toda a questão somente no terceiro argumento, julgando que a causa da ressurreição é o julgamento. Mas a falsidade disso se mostra com toda clareza pelo fato de que, embora todos os seres humanos que morrem ressuscitem, nem todos os que ressuscitam serão julgados. Pois, se apenas o justo julgamento fosse a causa da ressurreição, seguir-se-ia, naturalmente, que os que não praticaram nem o mal nem o bem — a saber, as crianças muito pequenas — não ressuscitariam. Mas, visto que todos hão de ressuscitar, inclusive os que morreram na infância, estes também justificam nossa conclusão de que a ressurreição não ocorre primariamente por causa do julgamento, mas em consequência do propósito de Deus ao formar os homens e da natureza dos seres assim formados.