Pois o que não está de acordo com sua vontade assim o é por ser injusto ou indigno dele. E, por sua vez, a injustiça diz respeito ou àquele que há de ressuscitar ou a alguém distinto dele. Mas é evidente que nenhum ser exterior a ele e contado entre as coisas existentes sofre dano. As naturezas espirituais (nohtai fuseis) não podem ser prejudicadas pela ressurreição dos homens, pois esta não impede sua existência nem lhes inflige perda ou violência alguma. Tampouco a natureza dos seres irracionais ou inanimados sofreria injustiça, pois eles não existirão após a ressurreição, e não se pode cometer injustiça contra o que não existe.
2Mesmo que alguém suponha que eles existam para sempre, não sofreriam injustiça com a renovação dos corpos humanos. Pois, se agora, ao servirem à natureza e às necessidades dos homens enquanto deles precisam e ao serem submetidos ao jugo e a toda espécie de trabalho penoso, não sofrem injustiça, muito menos a sofrerão quando os homens se tornarem imortais e livres de necessidades, já não precisarem de seus serviços, e eles próprios forem libertos da servidão. Se possuíssem o dom da fala, não acusariam o Criador de tê-los feito, contra a justiça, inferiores aos homens por não participarem da mesma ressurreição. Pois o Ser justo não atribui o mesmo fim a criaturas cuja natureza não é igual. Além disso, entre criaturas que não têm noção de justiça não pode haver queixa de injustiça.
3Nem se pode dizer que haja injustiça para com o homem que há de ressuscitar, pois ele consiste de alma e corpo, e não sofre dano em nenhum dos dois. Ninguém em sã consciência afirmará que sua alma sofre injustiça, pois, ao dizê-lo, sem perceber, lançaria a mesma censura também à vida presente: se agora, habitando um corpo sujeito à corrupção e ao sofrimento, ela não sofre injustiça, muito menos a sofrerá quando viver unida a um corpo livre de corrupção e sofrimento. O corpo, por sua vez, não sofre injustiça: se nenhuma injustiça lhe é feita agora, quando se une, sendo corruptível, ao incorruptível, manifestamente tampouco a sofrerá quando, incorruptível, se unir ao incorruptível.
4Não; tampouco alguém pode dizer que seja obra indigna de Deus ressuscitar e reunir novamente um corpo dissolvido. Pois, se a obra inferior não lhe era indigna — a saber, formar o corpo sujeito à corrupção e ao sofrimento —, muito menos lhe será indigna a superior: formar um corpo não sujeito à corrupção nem ao sofrimento.