Essas são as ‘doutrinas’ dos homens e ‘dos demônios’, produzidas para agradar a ouvidos ávidos pela sabedoria do espírito deste mundo. O Senhor a chamou ‘loucura’ e ‘escolheu as coisas loucas do mundo’ para confundir até mesmo a filosofia. Pois é a filosofia que fornece a matéria da sabedoria mundana, intérprete temerária da natureza e dos desígnios de Deus. De fato, as próprias heresias são instigadas pela filosofia. Dela vieram os Éons, não sei que formas infinitas e a trindade do homem no sistema de Valentino, discípulo da escola de Platão. Da mesma fonte veio o deus melhor de Marcião, com toda a sua imperturbabilidade: proveio dos estoicos.
2A opinião de que a alma morre é defendida pelos epicureus; a negação da restauração do corpo foi tomada do conjunto das escolas filosóficas; quando se iguala a matéria a Deus, eis a doutrina de Zenão; quando se propõe uma doutrina sobre um deus de fogo, surge Heráclito. Os hereges e os filósofos discutem repetidamente os mesmos assuntos e recorrem aos mesmos argumentos. De onde vem o mal? Por que é permitido? Qual a origem do homem e como ele veio a existir? E ainda a questão proposta muito recentemente por Valentino: de onde vem Deus? Ele a resolve respondendo: da entimese e do ectroma.
3Infeliz Aristóteles, que inventou para esses homens a dialética, arte de construir e demolir; tão evasiva em suas proposições, tão rebuscada em suas conjecturas, tão áspera em seus argumentos e tão fértil em contendas; embaraçosa até para si mesma, retrata-se de tudo e nada trata realmente! De onde vêm aquelas ‘fábulas e genealogias intermináveis’, aquelas ‘questões inúteis’ e aquelas ‘palavras que se espalham como um câncer’? Ao querer afastar-nos de tudo isso, o apóstolo menciona expressamente a filosofia como aquilo contra o que devemos precaver-nos.
4Escrevendo aos Colossenses, diz: ‘Cuidai que ninguém vos engane por meio da filosofia e de vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens e contra a sabedoria do Espírito Santo.’ Ele estivera em Atenas e, em suas conversas com os filósofos, conhecera essa sabedoria humana que pretende conhecer a verdade, mas apenas a corrompe, dividindo-se também em múltiplas heresias pela variedade de suas seitas rivais. Que tem, afinal, Atenas a ver com Jerusalém? Que concórdia há entre a Academia e a Igreja? E entre hereges e cristãos? Nossa instrução vem do ‘pórtico de Salomão’, que ensinou que ‘se deve buscar o Senhor com simplicidade de coração’.
5Fora com todas as tentativas de produzir um cristianismo mesclado de estoicismo, platonismo e dialética! Depois de possuirmos Jesus Cristo, não queremos discussões curiosas; depois de recebermos o evangelho, não queremos investigações! Com a nossa fé, não desejamos crença adicional. Pois esta é a nossa convicção primordial: nada mais há em que devamos crer.