Até aqui, enfim, tratamos da paciência simples e uniforme, tal como existe apenas na alma; mas também de muitas formas me esforço por ela no corpo, a fim de ganhar o Senhor, pois é uma virtude que o próprio Senhor manifestou também corporalmente, se é verdade que a alma dirigente comunica facilmente os dons do Espírito à sua morada corporal. Qual é, portanto, a tarefa da Paciência no corpo? Em primeiro lugar, é a mortificação da carne, vítima capaz de aplacar o Senhor pelo sacrifício da humilhação, ao oferecer-Lhe roupas humildes e alimento escasso, contentando-se com comida simples e água pura e juntando a tudo isso os jejuns; ao habituar-se ao cilício e às cinzas.
2Essa paciência corporal acrescenta graça às nossas orações pelo bem e força às nossas orações contra o mal; abre os ouvidos de Cristo, nosso Deus, dissipa a severidade e obtém clemência. Assim, aquele rei babilônio, depois de passar sete anos privado da condição humana, na miséria e no abandono, por ter ofendido o Senhor, mediante a imolação corporal da paciência não apenas recuperou o reino, mas também — o que é mais desejável para um homem — reconciliou-se com Deus. Além disso, se enumerarmos os graus superiores e mais felizes da paciência corporal, veremos que a santidade lhe confia o cuidado da continência da carne: ela guarda a viúva, imprime seu selo na virgem e eleva ao reino dos céus quem se fez eunuco por si mesmo. Aquilo que nasce como virtude da alma se aperfeiçoa na carne e, por fim, combate na perseguição pela paciência da carne.
3Se a fuga se torna urgente, a carne luta contra os incômodos da fuga; se o cárcere nos alcança,
4é a carne que permanece acorrentada, presa em grilhões, em solidão, privada de luz e suportando os maus-tratos do mundo. Quando, porém, é conduzida à prova final da felicidade, à ocasião do segundo batismo, ao ato de subir ao trono divino, nenhuma paciência lhe é mais necessária do que a paciência corporal. Se o espírito está pronto, mas a carne, sem paciência, é fraca, onde, senão na paciência, estará a segurança do espírito e da própria carne? Ao dizer isso da carne, chamando-a fraca, o Senhor mostra a necessidade de fortalecê-la pela paciência para enfrentar toda ameaça destinada a abalar ou castigar a fé, a fim de suportar com toda constância açoites, fogo, cruz, feras e espada, coisas que profetas e apóstolos venceram suportando-as!