E assim foram caminhando até que chegaram a um lugar deserto onde não havia ovelhas; disse então Abel a Caim: "Eis, meu irmão, que estamos cansados de andar; pois não vemos nenhuma das árvores, nem dos frutos, nem das plantas verdejantes, nem das ovelhas, nem qualquer daquelas coisas que me disseste. Onde estão aquelas tuas ovelhas que me pediste para abençoar?"
2Disse-lhe então Caim: "Vem adiante e verás muitas coisas formosas muito em breve; mas vai à minha frente, até que eu te alcance."
3Foi então Abel para a frente, mas Caim ficou atrás dele.
4E Abel caminhava na sua singeleza, sem dolo algum, não crendo que seu irmão o mataria.
5Então Caim, aproximando-se dele, ia entretendo-o com as suas palavras, andando um pouco atrás dele; e logo arremeteu contra ele e feriu-o com o cajado, golpe sobre golpe, até deixá-lo atordoado.
6Mas caindo Abel por terra e vendo que seu irmão pretendia matá-lo, disse a Caim: "Ó meu irmão, tem piedade de mim! Pelos seios que mamamos, não me firas! Pelo ventre que nos gerou e que nos trouxe a este mundo, não me mates com este cajado! Se queres tirar-me a vida, toma uma destas grandes pedras e mata-me de uma vez."
7Tomou então Caim, o duro de coração e cruel homicida, uma grande pedra e esmagou com ela a cabeça de seu irmão até que os seus miolos se derramaram, e ele revolveu-se no seu sangue diante dele.
8E Caim não se arrependeu do que havia feito.
9Mas a terra, quando o sangue do justo Abel caiu sobre ela, estremeceu ao sorver o seu sangue, e teria destruído a Caim por causa disso.
10E o sangue de Abel clamava misteriosamente a Deus, pedindo vingança contra o seu homicida.
11Começou então Caim imediatamente a cavar a terra para nela sepultar seu irmão; pois tremia de pavor pelo temor que lhe sobreveio quando viu a terra estremecer por sua causa.
12Lançou então seu irmão na cova que havia feito e cobriu-o de pó. Mas a terra não o quis receber, senão que o arrojou para fora imediatamente.
13Cavou Caim a terra outra vez e nela encobriu seu irmão; mas de novo a terra o expeliu sobre si mesma; até que por três vezes a terra repeliu sobre si o corpo de Abel.
14A terra lodosa o expeliu na primeira vez porque ele não fora a primeira criação; e arrojou-o fora na segunda vez e não o quis receber porque era justo e bom, e fora morto sem causa; e a terra o repeliu pela terceira vez e não o aceitou para que permanecesse perante seu irmão uma testemunha contra ele.
15E assim a terra escarneceu de Caim, até que a Palavra de Deus veio a ele concernente a seu irmão.
16Irou-se então Deus e indignou-se grandemente pela morte de Abel; trovejou desde o céu e relâmpagos iam diante Dele, e a Palavra do Senhor Deus veio do céu a Caim e disse-lhe: "Onde está Abel, teu irmão?"
17Respondeu então Caim com coração orgulhoso e voz áspera: "Como, ó Deus? Sou eu o guarda do meu irmão?"
18Disse então Deus a Caim: "Maldita seja a terra que bebeu o sangue de Abel, teu irmão; e quanto a ti, estarás sempre a tremer e a vacilar; e isto te será por sinal para que qualquer que te achar te mate."
19Chorou então Caim porque Deus lhe dissera tais palavras, e disse-Lhe: "Ó Deus, qualquer que me achar me matará, e serei apagado da face da terra."
20Disse-lhe então Deus: "Qualquer que te achar não te matará;" porque antes disto dissera Deus a Caim: "Sete castigos porei sobre qualquer que matar a Caim." Pois quanto à palavra de Deus a Caim: "Onde está teu irmão?", disse-a Deus por misericórdia para com ele, a ver se o levava ao arrependimento.
21Porque se Caim se houvesse arrependido naquele tempo e dito: "Ó Deus, perdoa-me o meu pecado e o homicídio de meu irmão", Deus lhe haveria perdoado o seu pecado.
22E quanto a dizer Deus a Caim: "Maldita é a terra que bebeu o sangue de teu irmão", foi isto também misericórdia de Deus para com Caim. Pois Deus não o amaldiçoou a ele, mas amaldiçoou a terra; ainda que não tivesse sido a terra a matar Abel nem a cometer tão perverso pecado.
23Porquanto era justo que a maldição caísse sobre o homicida; contudo, em Sua misericórdia Deus assim ordenou os Seus desígnios para que ninguém o soubesse e se desviasse de Caim.
24E disse-lhe: "Onde está teu irmão?" Ao que ele respondeu dizendo: "Não sei." Disse-lhe então o Criador: "Vive tremendo e vacilando."
25Tremeu então Caim e ficou apavorado; e por este sinal Deus o pôs por escarmento perante toda a criação como o assassino de seu irmão. Também trouxe Deus sobre ele tremor e espanto para que visse a paz em que estava no princípio e visse o tremor e o terror que suportava no fim; para que se humilhasse diante de Deus, se arrependesse do seu pecado e buscasse a paz de que dantes desfrutava.
26E na palavra de Deus que dizia: "Sete castigos porei sobre qualquer que matar a Caim", não buscava Deus matar a Caim à espada, mas pretendia fazê-lo morrer de jejum, oração e pranto sob dura disciplina, até ao tempo em que fosse liberto do seu pecado.
27E os sete castigos são as sete gerações durante as quais Deus tolerou a Caim pelo assassínio de seu irmão.
28Quanto a Caim, desde que matou seu irmão não pôde achar descanso em lugar algum; mas voltou a Adão e Eva, trêmulo, aterrorizado e manchado de sangue.