Pois o que Deus, que exige a oração, já negou àquela que vem do espírito e da verdade? Que poderosos exemplos de sua eficácia lemos, ouvimos e cremos! A oração dos tempos antigos, de fato, costumava livrar do fogo, das feras e da fome; e, contudo, ainda não recebera de Cristo sua forma. Mas quão mais ampla é a ação da oração cristã! Ela não põe o anjo do orvalho 691
2no meio do fogo, nem fecha a boca dos leões, nem leva aos famintos o pão dos camponeses; não possui graça delegada para afastar toda sensação de sofrimento, mas concede resistência àqueles que sofrem, sentem e lamentam: amplia a graça pela virtude, para que a fé saiba o que recebe do Senhor, compreendendo o que sofre por causa do nome de Deus. Nos tempos passados, além disso, a oração costumava atrair pragas, dispersar os exércitos inimigos e deter as chuvas benéficas. Agora, porém, a oração dos justos afasta toda a ira de Deus, monta guarda em favor dos inimigos pessoais e suplica pelos perseguidores. É de admirar que saiba obter as chuvas do céu, ela que antes podia conseguir seus fogos? Só a oração é capaz de vencer a Deus.
3Mas Cristo quis que ela não agisse para mal algum: conferiu-lhe toda a sua força para a causa do bem. Assim, ela só sabe chamar de volta as almas dos falecidos do próprio caminho da morte, transformar os fracos, restabelecer os enfermos, purificar os possessos, abrir as portas das prisões e soltar as correntes dos inocentes. Também lava as faltas, repele as tentações, extingue as perseguições, consola os abatidos, anima os corajosos, acompanha os viajantes, acalma as ondas, aterroriza os ladrões, alimenta os pobres, governa os ricos, levanta os caídos, detém os que estão caindo e fortalece os que permanecem de pé. A oração é a muralha da fé, suas armas e seus projéteis contra o inimigo que nos espreita por todos os lados. Por isso, nunca andemos desarmados. De dia, lembremo-nos da Estação; à noite, da vigília.
4Sob as armas da oração, guardemos o estandarte de nosso General; aguardemos em oração a trombeta do anjo. Também os anjos todos oram; toda criatura ora; o gado e os animais selvagens oram e dobram os joelhos; e, ao saírem de seus repousos e esconderijos, olham para o céu sem manter a boca ociosa, fazendo vibrar o fôlego a seu modo. Mais ainda, as aves, ao levantarem voo do ninho, erguem-se para o céu e, em vez de mãos, estendem a cruz de suas asas e emitem algo que parece oração. Que mais dizer, então, sobre o dever da oração? Até o próprio Senhor orou; a ele sejam a honra e o poder pelos séculos dos séculos!