Mas é causa de pasmo, ó Rei, quanto aos Gregos, que superam os demais povos em seu modo de viver e raciocinar, como se extraviaram atrás de ídolos mortos e imagens inanimadas. E no entanto veem seus deuses nas mãos de seus artífices serem serrados, aplainados, decepados, mutilados, chamuscados, ornamentados e alterados por eles de toda maneira. E quando envelhecem e se desgastam pelo decurso do tempo, e quando são fundidos e reduzidos a pó, como é que não percebem a seu respeito que não são deuses? E quanto àqueles que não acharam livramento para si mesmos, como haveriam de socorrer os homens em sua aflição?
2Mas até os escritores e filósofos dentre eles alegaram erroneamente que os deuses são feitos em honra do Deus Todo-Poderoso. E erram ao pretender assemelhá-los a Deus, a quem o homem jamais viu nem pode ver a que Ele se assemelha. Nisto também erram, ao asseverar da divindade que qualquer deficiência possa estar Nela presente, como quando dizem que Ele recebe sacrifícios e requer holocaustos, libações, imolações de homens e templos. Mas Deus não passa necessidade, e nenhuma dessas coisas Lhe é necessária; e é patente que os homens erram nas coisas que imaginam.
3Ademais, seus escritores e filósofos asseveram e declaram que a natureza de todos os seus deuses é uma só. E não apreenderam a Deus, nosso Senhor, que sendo um só, está em tudo. Erram, portanto. Pois se o corpo do homem, conquanto formado de muitas partes, não teme um membro ao outro, mas, sendo corpo unido, concorda plenamente consigo mesmo, assim também Deus é um em Sua natureza. Uma só essência Lhe é própria, visto ser Ele uniforme em Sua natureza e em Sua essência; e Ele não teme a Si mesmo. Se, pois, a natureza dos deuses é uma só, não convém que um deus persiga, mate ou fira a outro deus. Se, pois, deuses são perseguidos e feridos por deuses, e alguns são raptados e outros mortos por raios, é óbvio que a natureza de seus deuses não é uma só. E daqui se conhece, ó Rei, que é um equívoco quando reúnem as naturezas de seus deuses sob uma única essência. Se, pois, nos cumpre admirar um deus que é visto e não vê, quanto mais louvável é crer numa natureza que é invisível e tudo vê? E se, ademais, é justo aprovar as obras de um artífice, quanto mais convém glorificar o Criador do artífice?
4Pois eis que, quando os Gregos promulgaram leis, não perceberam que por suas próprias leis condenavam os seus deuses. Pois se as suas leis são justas, os seus deuses são injustos, visto que transgrediram a lei matando-se uns aos outros, praticando feitiçaria, cometendo adultério, roubando, furtando, deitando-se com machos e por suas demais práticas também. Pois se os seus deuses agiram com retidão ao praticar todas essas coisas como se acham descritas, então as leis dos Gregos são injustas por não terem sido feitas conforme a vontade de seus deuses. E nesse caso o mundo inteiro se extraviou.
5Pois as narrativas sobre seus deuses são algumas delas mitos, outras poemas sobre a natureza, e outras hinos e elegias. Os hinos, com efeito, e as elegias são palavras vazias e ruído. Mas esses poemas sobre a natureza, mesmo que tenham sido compostos como dizem, ainda assim não são deuses aqueles que praticam tais atos, sofrem e suportam tais coisas. E esses mitos são fábulas superficiais, destituídas de qualquer profundeza.