Os Egípcios, ademais, por serem mais vis e néscios do que todos os povos da terra, erraram mais do que todos. Pois as divindades dos Bárbaros e dos Gregos não lhes bastaram, mas introduziram também seres da natureza dos animais, dizendo deles que eram deuses, bem como répteis da terra seca e das águas; e de plantas e ervas disseram que algumas eram deuses. E corromperam-se com toda sorte de ilusão e contaminação mais do que qualquer outro povo sobre a terra. Pois desde a antiguidade adoraram a Ísis, e dizem que ela é uma deusa cujo esposo era Osíris, seu irmão. E quando Osíris foi morto por Tífon, seu irmão, Ísis fugiu com Hórus, seu filho, para Biblos na Síria, permanecendo ali até que seu filho crescesse. E ele lutou contra Tífon, seu tio, e o matou. E depois Ísis regressou e andou com Hórus à procura do corpo morto de Osíris, seu senhor, carpindo amargamente a sua morte. Se, pois, Ísis é deusa e não pôde socorrer a Osíris, seu irmão e esposo, como poderá socorrer a outrem? Mas é impossível que uma natureza divina sinta medo, fuja para se salvar, chore ou lamente; do contrário seria deplorável.
2E de Osíris também dizem ser um deus benfazejo; contudo foi morto por Tífon, sem poder salvar-se. Ora, é bem sabido que isso não pode ser atribuído à divindade. E de seu irmão Tífon dizem igualmente ser deus, o qual matou seu irmão e foi morto pelo sobrinho e pela cunhada, sem poder defender-se. E como, pergunto, é deus aquele que a si mesmo não salva?
3Como os Egípcios, pois, fossem mais insensatos do que o restante das nações, estes deuses e outros semelhantes não lhes foram suficientes; antes, aplicaram o nome de deuses a animais nos quais alma alguma existe. Pois alguns deles adoram a ovelha, outros o bezerro; alguns o porco, outros o sável; alguns o crocodilo, o gavião, o peixe, o íbis, o abutre, a águia e o corvo. Alguns adoram o gato, outros o pregado; alguns o cão, a víbora, o áspide e o leão; outros o alho, as cebolas, os espinhos, o tigre e coisas afins. E as pobres criaturas não enxergam que todas essas coisas são nada, embora diariamente testemunhem seus deuses sendo comidos e consumidos por homens e por seus congêneres; enquanto alguns são cremados, outros morrem, apodrecem e se tornam pó, sem que percebam que perecem de muitas formas. Assim, os Egípcios não observaram que coisas incapazes de seu próprio livramento não são deuses. E se são fracos para a sua própria salvação, donde lhes virá poder para socorrer os seus adoradores? Grande, pois, é o erro em que se perderam os Egípcios — maior, em verdade, do que o de qualquer povo sobre a face da terra.