Mas por que falar de corpos que não foram destinados a servir de alimento a animal algum e só têm por destino a sepultura na terra, em honra da natureza, visto que o Criador do mundo não destinou animal algum a servir de alimento aos da mesma espécie, embora alguns de espécies diferentes sirvam naturalmente de alimento? Se, de fato, puderem mostrar que a carne humana foi destinada a alimentar homens, nada impedirá que comerem-se uns aos outros seja conforme à natureza, tal como qualquer outra coisa permitida por ela; e nada proibirá aos que ousam dizer tais coisas regalarem-se com os corpos de seus amigos mais queridos como iguarias especialmente adequadas a eles, e oferecerem o mesmo repasto aos amigos vivos.
2Mas, se até falar disso é ilícito, se comer carne humana é para os homens coisa sumamente odiosa e abominável, mais detestável do que qualquer outro alimento ou ato ilícito e contrário à natureza, e se o que é contrário à natureza nunca pode transformar-se em alimento para os membros e partes que dele necessitam, enquanto o que não se transforma em alimento jamais pode unir-se ao que não é capaz de nutrir, então os corpos humanos nunca podem combinar-se com corpos semelhantes, para os quais tal alimento seria contrário à natureza, ainda que, por algum infortúnio extremamente amargo, passasse muitas vezes por seu estômago. Afastados, porém, da ação da força nutritiva e dispersos outra vez pelas regiões do universo de onde tiveram sua primeira origem, permanecem unidos a elas pelo tempo que a cada um couber; depois, separados novamente pela habilidade e pelo poder daquele que fixou a natureza de cada animal e o dotou de suas forças próprias, unem-se adequadamente, cada qual àquilo que lhe corresponde, quer tenham sido consumidos pelo fogo, decompostos pela água, devorados por feras ou quaisquer outros animais, quer tenham sido separados do corpo inteiro e dissolvidos antes das demais partes. E, reunidos novamente uns aos outros, ocupam o mesmo lugar para a exata constituição e formação do mesmo corpo, e para a ressurreição e a vida daquele que estava morto ou até inteiramente dissolvido.
3Não convém, contudo, alongar-nos mais nesses assuntos, pois todos os homens concordam em seu julgamento a respeito deles — ao menos aqueles que não são meio brutos.