Essas pessoas dizem, a saber, que muitos corpos daqueles que tiveram uma morte infeliz em naufrágios e rios serviram de alimento aos peixes, e que muitos dos que perecem na guerra, ou que por alguma outra triste causa ou circunstância são privados de sepultura, ficam expostos para servir de alimento aos animais que por acaso os encontrem. Como os corpos são assim consumidos, e os membros e partes que os compõem são desfeitos e distribuídos entre grande número de animais, incorporando-se, pela nutrição, aos corpos daqueles que deles se alimentam, dizem, em primeiro lugar, que é impossível separá-los destes; e, em segundo lugar, apresentam outra circunstância ainda mais difícil.
2Quando animais próprios para o consumo humano, que se alimentaram de corpos humanos, passam pelo estômago dos homens e são incorporados aos corpos daqueles que os comeram, é absolutamente necessário, dizem eles, que as partes dos corpos humanos que serviram de alimento aos animais passem para outros corpos humanos, visto que os animais que nesse intervalo foram nutridos por elas transmitem a nutrição recebida daqueles de quem se alimentaram aos homens de quem se tornam alimento.
3Depois acrescentam dramaticamente a devoração de filhos cometida por pessoas em tempos de fome e loucura, as crianças comidas pelos próprios pais por artifício dos inimigos, o célebre banquete medo e o trágico festim de Tiestes; e acrescentam ainda outros acontecimentos semelhantes e inauditos, ocorridos entre gregos e bárbaros. Com base nessas coisas estabelecem, como supõem, a impossibilidade da ressurreição, alegando que as mesmas partes não podem ressuscitar com um conjunto de corpos e também com outro; pois ou os corpos dos primeiros possuidores não podem ser reconstituídos, já que as partes que os compunham passaram para outros, ou, restituídas estas aos primeiros, os corpos dos últimos possuidores ficarão incompletos.