Consideremos, então, o assunto da maneira que indiquei. Se nem toda incredulidade nasce da leviandade e da irreflexão, mas surge em algumas mentes de razões sólidas e acompanhada da certeza própria da verdade, muito bem; pois então ela conserva a aparência de ser justa quando aquilo a que se refere parece indigno de crédito. Mas não crer em coisas que não merecem incredulidade é próprio de homens que não julgam a verdade com discernimento.
2Convém, portanto, aos que não creem na ressurreição ou dela duvidam formar sua opinião a respeito não com base em uma ideia adotada precipitadamente e naquilo que agrada aos dissolutos, mas ou atribuir a origem dos homens a causa alguma — concepção que se refuta com muita facilidade —, ou, atribuindo a causa de todas as coisas a Deus, manter firmemente em vista o princípio envolvido nessa crença e, a partir dele, demonstrar que a ressurreição é inteiramente indigna de crédito. Conseguirão fazê-lo se puderem mostrar que é impossível a Deus, ou contrário à sua vontade, reunir e juntar de novo corpos mortos, ou mesmo inteiramente dissolvidos em seus elementos, de modo a constituir as mesmas pessoas.
3Se não o podem fazer, abandonem essa incredulidade ímpia e essa blasfêmia contra as coisas sagradas; pois o que direi a seguir mostrará claramente que não falam a verdade quando dizem ser isso impossível ou contrário à vontade divina.
4Em sentido rigoroso, uma coisa é considerada impossível para alguém quando é de tal natureza que ele ou não sabe o que deve ser feito ou não tem poder suficiente para executar devidamente aquilo que sabe. Pois quem ignora o que precisa ser feito é absolutamente incapaz de tentar ou realizar o que desconhece; e quem sabe muito bem o que é preciso fazer, por quais meios e de que maneira, mas não possui poder algum para fazê-lo, ou não possui poder suficiente, nem sequer empreenderá a tarefa se for sábio e ponderar suas forças; e, caso a empreendesse sem a devida reflexão, não alcançaria seu propósito.
5Mas é impossível que Deus ignore a natureza dos corpos que hão de ressuscitar, tanto no que se refere aos membros inteiros quanto às partículas que os compõem; tampouco pode ignorar para onde vai cada partícula dissolvida e que porção dos elementos recebeu aquilo que se dissolveu e passou a unir-se ao que lhe é afim, embora aos homens pareça totalmente impossível separar outra vez do universo aquilo que, conforme a própria natureza, voltou a combinar-se com ele.
6Pois aquele a quem, antes da formação particular de cada um, não estava oculta nem a natureza dos elementos de que seriam constituídos os corpos humanos nem as partes desses elementos das quais tomaria o que lhe parecia adequado à formação do corpo humano, manifestamente não ignorará, depois da dissolução do todo, para onde passou cada uma das partículas que tomou para constituir cada indivíduo. Segundo a ordem das coisas que agora vigora entre nós e o juízo que fazemos sobre outros assuntos, conhecer de antemão o que ainda não aconteceu é algo maior; mas, diante da majestade e da sabedoria de Deus, ambas as coisas estão de acordo com a natureza, e é igualmente fácil conhecer de antemão o que ainda não existe e conhecer aquilo que se dissolveu.