O Espírito de Deus, a Palavra de Deus e a Razão de Deus — Palavra da Razão, e Razão e Espírito da Palavra —, Jesus Cristo, nosso Senhor, que é tanto uma quanto outra coisa, determinou para nós, discípulos do Novo Testamento, uma nova forma de oração; pois também nisso era necessário guardar vinho novo em odres novos e costurar um remendo novo numa veste nova. Além disso, tudo quanto existia em tempos passados ou foi inteiramente mudado, como a circuncisão; ou foi complementado, como o restante da Lei; ou foi cumprido, como a Profecia; ou foi aperfeiçoado, como a própria fé.
2Pois a nova graça de Deus renovou todas as coisas, passando do carnal ao espiritual, ao introduzir o Evangelho, que aboliu todo o antigo sistema passado; nele nosso Senhor Jesus Cristo foi reconhecido como o Espírito de Deus, a Palavra de Deus e a Razão de Deus: o Espírito, pelo qual era poderoso; a Palavra, pela qual ensinava; a Razão, pela qual veio. Assim, a oração composta por Cristo foi composta de três partes. Quanto à expressão, pela qual se enuncia a oração, e quanto ao espírito, pelo qual somente ela prevalece, até João ensinara seus discípulos a orar; mas todas as obras de João serviram de fundamento para Cristo, até que, quando ele cresceu — como o próprio João costumava anunciar que era necessário que ele crescesse e que o próprio João diminuísse —, toda a obra do precursor, juntamente com seu próprio espírito, passou ao Senhor.
3Portanto, não se conservou a fórmula de palavras com que João ensinava a orar, porque as coisas terrenas cederam lugar às celestiais. Aquele que vem da terra, diz João, fala de coisas terrenas; e aquele que vem dos céus fala das coisas que viu. E o que há no Senhor Cristo — como há nesta forma de orar — que não seja celestial? Assim, irmãos bem-aventurados, consideremos sua sabedoria celestial: primeiro, no tocante ao preceito de orar em segredo, pelo qual exigiu a fé do homem, para que confiasse que a vista e a audição de Deus Todo-Poderoso estão presentes sob os tetos e chegam até o lugar secreto; e exigiu a modéstia da fé, para que prestasse sua homenagem religiosa somente àquele que cria ver e ouvir em toda parte.
4Além disso, já que a sabedoria prossegue no preceito seguinte, pertença igualmente à fé e à modéstia da fé o entendimento de que não se deve aproximar do Senhor com uma profusão de palavras, pois estamos certos de que ele, sem que lhe peçam, cuida antecipadamente dos seus. E, no entanto, essa mesma brevidade — e isso constitui o terceiro grau da sabedoria — assenta-se na substância de uma interpretação grande e bendita, e é tão ampla no sentido quanto concisa nas palavras. Pois abrangeu não só os deveres próprios da oração, seja a veneração de Deus, seja a súplica do homem, mas quase todo discurso do Senhor, todo registro de sua Disciplina; de modo que, de fato, a Oração contém um resumo de todo o Evangelho.