Enquanto o apóstolo ainda estava na estrada e falava à multidão, veio uma cria de jumenta, parou diante dele, abriu a boca e disse: Ó gêmeo de Cristo, apóstolo do Altíssimo e iniciado na palavra oculta de Cristo, que recebes seus oráculos secretos; cooperador do Filho de Deus, tu que, sendo livre, te fizeste servo e, tendo sido vendido, trouxeste muitos à liberdade! Parente da grande linhagem que condenou o inimigo e redimiu os seus, tu te tornaste ocasião de vida para os homens na terra dos indianos. Vieste a homens que estavam em erro, e por tua presença e tuas palavras divinas eles agora se voltam para o Deus da verdade que te enviou. Monta em mim e repousa até entrares na cidade. O apóstolo respondeu: Ó Jesus Cristo, que compreendes a misericórdia perfeita! Ó tranquilidade e sossego de que agora falam até os animais! Ó descanso oculto que se manifesta por tua obra, nosso Salvador e sustentador, que nos guardas e repousas em corpos alheios! Ó Salvador de nossas almas, nascente doce e inesgotável, fonte segura, límpida e jamais poluída; defensor e auxílio na luta de teus servos, que afastas e espantas de nós o inimigo, combates tantas batalhas por nós e nos fazes vencedores em todas! Nosso campeão verdadeiro e invencível, nosso comandante santo e vitorioso, glorioso, que concedes aos teus alegria que nunca passa e alívio sem aflição; bom pastor que te entregas por tuas ovelhas, venceste o lobo, resgataste teus cordeiros e os conduziste a boa pastagem: nós te glorificamos e louvamos, a ti, a teu Pai invisível, a teu Espírito Santo e à mãe de toda a criação.
2Quando o apóstolo disse essas coisas, toda a multidão olhou para ele, esperando ouvir o que responderia ao jumentinho. O apóstolo permaneceu longo tempo como atônito, ergueu os olhos ao céu e disse ao animal: De quem és tu e a quem pertences? Pois maravilhosas são as coisas proferidas por tua boca, surpreendentes e ocultas para muitos. Respondeu o jumentinho: Sou da raça que serviu a Balaão; teu Senhor e mestre também se assentou sobre um de minha linhagem. Agora fui enviado para dar-te descanso, levando-te sobre mim, e para que eu receba fé e me seja acrescentada a parte que receberei pelo serviço que te presto; depois que te servir, ela será tirada de mim. Disse-lhe o apóstolo: Aquele que te concedeu esse dom pode fazê-lo permanecer até o fim em ti e nos de tua linhagem; pois quanto a esse mistério sou fraco e incapaz. E não quis montar nele. O jumentinho, porém, suplicou-lhe insistentemente que o abençoasse ao deixar-se servir por ele. Então o apóstolo montou e sentou-se sobre ele. Uns iam à frente, outros atrás, e todos corriam, desejosos de ver o desfecho e como ele despediria o animal.
3Quando chegou perto das portas da cidade, o apóstolo desceu do jumentinho e disse: Parte e permanece seguro no lugar de onde vieste. Imediatamente o animal caiu morto aos pés do apóstolo. Todos os presentes se entristeceram e lhe disseram: Devolve-lhe a vida, ressuscita-o. Ele respondeu: De fato, posso ressuscitá-lo em nome de Jesus Cristo, mas o que aconteceu convém. Aquele que lhe deu a fala podia também fazer com que não morresse; não o ressuscito, não por falta de poder, mas porque isso lhe é conveniente e proveitoso. Ordenou então aos presentes que cavassem uma sepultura e enterrassem seu corpo, e eles obedeceram.