'Os primeiros serão os últimos, e os últimos, os primeiros.' Essa frase é rica em sentido e explicação, mas não exige investigação agora, pois se refere claramente a todos os homens que uma vez se entregaram à fé, e não só aos ricos. Deixemo-la, por ora, de lado. Penso, porém, que nossa proposição foi demonstrada de modo algum inferior ao que prometemos: o Salvador de maneira nenhuma excluiu os ricos por causa da própria riqueza e da posse de bens, nem lhes vedou a salvação, se puderem e quiserem submeter a vida aos mandamentos de Deus, preferi-los aos objetos transitórios e olhar para o Senhor com atenção constante, como os que aguardam o aceno de um bom timoneiro: o que deseja, ordena, indica, que sinal dá aos marinheiros, para onde e de onde dirige o curso do navio. Que mal fez quem, antes da fé, empregou a inteligência e, economizando, reuniu o suficiente? Ou, o que é muito menos censurável, se Deus, que lhe deu a vida, fez que nascesse numa casa de gente rica, poderosa em bens e eminente em opulência? Se um homem é banido da vida por nascer involuntariamente na riqueza, então é antes lesado por Deus, que o criou, por lhe haver concedido um gozo temporário e privado da vida eterna. E por que teria a riqueza brotado da terra, se fosse autora e protetora da morte?
2Mas, se alguém consegue, em meio à riqueza, afastar-se do poder dela, nutrir sentimentos moderados, exercer domínio de si, buscar somente a Deus, respirar Deus e caminhar com Deus, esse homem pobre obedece aos mandamentos, sendo livre, invicto, sem doença e não ferido pela riqueza. Caso contrário, 'mais depressa um camelo passará pelo fundo de uma agulha do que tal rico chegará ao reino de Deus'.
3Que o camelo, então, passando por um caminho estreito e apertado antes do rico, signifique algo mais elevado; esse mistério do Salvador deve ser aprendido na 'Exposição dos Primeiros Princípios e da Teologia'.