Mas, para que alguns não suponham, pelo que dissemos, que afirmamos que tudo quanto acontece ocorre por necessidade do destino, por ter sido predito como previamente conhecido, esclarecemos também isto. Aprendemos dos profetas, e consideramos verdadeiro, que castigos, correções e boas recompensas são concedidos conforme o mérito das ações de cada homem. Pois, se assim não fosse, mas tudo acontecesse por destino, nada estaria ao nosso alcance. Se estivesse destinado que este homem, por exemplo, fosse bom e aquele outro mau, nem o primeiro teria mérito, nem o segundo mereceria censura. E, se o gênero humano não tiver o poder de evitar o mal e escolher o bem por livre escolha, não será responsável por seus atos, quaisquer que sejam. Mas demonstramos assim que por livre escolha os homens tanto agem retamente como tropeçam.
2Vemos o mesmo homem passar a comportamentos opostos. Ora, se estivesse destinado que ele fosse bom ou mau, jamais seria capaz de ambos os opostos nem de tantas mudanças. Tampouco alguns seriam bons e outros maus, pois assim faríamos do destino a causa do mal e o apresentaríamos agindo contra si mesmo; ou pareceria verdadeira a afirmação já mencionada de que nem a virtude nem o vício são coisa alguma, mas de que as coisas são consideradas boas ou más apenas pela opinião, o que, como mostra a palavra verdadeira, é a maior impiedade e perversidade. Mas afirmamos que este é o destino inevitável: os que escolhem o bem recebem recompensas dignas, e os que escolhem o contrário recebem o que merecem.
3Pois Deus não fez o homem como as outras coisas, como árvores e quadrúpedes, que não podem agir por escolha; de outro modo, ele não seria digno de recompensa nem de louvor se não escolhesse por si mesmo o bem, mas tivesse sido criado para esse fim; e, se fosse mau, não mereceria castigo, por não o ser por si mesmo, mas por não poder ser diferente daquilo que foi feito.