Apresentam novamente como outro deus a Hefesto. E dizem dele que é coxo, traz um barrete na cabeça e segura nas mãos tenazes e um martelo, exercendo o ofício de ferreiro para com isso angariar o necessário para o seu sustento. É, pois, este deus tão necessitado? Mas não pode ser que um deus seja indigente ou coxo, do contrário seria ele sumamente desprezível.
2E ademais introduzem outro deus e o chamam Hermes. E dizem dele que é ladrão, afeiçoado à avareza, cúpido de lucro, mágico, mutilado, atleta e intérprete de línguas. Mas é impossível que um deus seja mágico, avarento, mutilado, cobiçoso do que não é seu, ou um atleta. E se assim fosse, torna-se imprestável.
3E depois dele apresentam como outro deus a Asclépio. E dizem que ele é médico e prepara unguentos e emplastros para obter o sustento para a sua subsistência. Acha-se, pois, este deus em penúria? E por fim foi fulminado por um raio de Dios por causa de Tindareu da Lacedemônia, e assim morreu. Se, pois, Asclépio era deus e, fulminado pelo raio, foi incapaz de salvar-se a si mesmo, como poderia socorrer a outros? Mas que uma natureza divina passe necessidade ou seja destruída por um raio é impossível.
4E de novo apresentam outro como deus e chamam-no Ares. E dizem que ele é guerreiro, ciumento, que cobiça ovelhas e coisas que não lhe pertencem, tirando proveito das armas. E dizem que por fim cometeu adultério com Afrodite e foi apanhado pelo pequeno Cupido e por Hefesto, esposo de Afrodite. Mas é impossível que um deus seja guerreiro, prisioneiro ou adúltero.
5E afirmam ainda de Dionísio que ele porventura seria um deus, o qual promove bacanais à noite, ensina a embriaguez e arrebata mulheres alheias. E por fim contam que enlouqueceu, despediu suas servas e fugiu para o deserto; e durante a loucura comeu serpentes, sendo ao final morto pelos Titãs. Se, pois, Dionísio era deus e, ao ser morto, foi incapaz de acudir a si mesmo, como seria possível socorrer a outrem?
6Apresentam em seguida a Hércules e dizem ser um deus que odeia coisas detestáveis, tirano, guerreiro e debelador de pragas. E dele dizem igualmente que por fim enlouqueceu, matou os próprios filhos, lançou-se no fogo e morreu. Se, pois, Hércules é deus e em todas essas calamidades foi incapaz de livrar a si próprio, como poderiam outros pedir-lhe auxílio? Mas é impossível que um deus seja louco, beberrão, assassino de seus filhos ou consumido pelo fogo.