Sêneca a Paulo, saudações. Salve, meu caríssimo Paulo. Julgais porventura que não me encontro em tristeza e dor, vendo que o vosso povo inocente é tão frequentemente condenado ao suplício? E mais, que todo o povo vos tenha por tão insensíveis e propensos ao crime, supondo que sois os causadores de todas as desgraças da cidade?
2Entretanto, suportemo-lo pacientemente e contentemo-nos com o que a sorte nos deparar, até que a suprema felicidade ponha termo às nossas aflições. As eras passadas tiveram de suportar o macedônio, filho de Filipe, e, depois de Dario, a Dionísio; e os nossos próprios tempos toleraram Caio César: para todos os quais a sua própria vontade era lei.
3A causa dos múltiplos incêndios que Roma padece é manifesta. Mas se os homens humildes pudessem proferir qual é a razão, e se fosse possível falar sem risco nestes tempos sombrios, tudo estaria patente a todos. Cristãos e judeus são costumeiramente executados como autores do incêndio.
4Quem quer que seja o criminoso, cujo prazer é o de um carniceiro e que se encobre com a mentira, está reservado para a sua própria hora; e assim como o melhor dos homens é imolado, um por muitos, assim ele, devotado à morte por todos, será consumido pelo fogo. Cento e trinta e duas casas e quatro quarteirões foram queimados em seis dias; o sétimo trouxe uma pausa. Rogo que passeis bem, irmão. Dado no quinto dia antes das calendas de abril; sendo cônsules Frúgi e Basso.